“A beleza é uma coisa terrível e horrível! Terrível porque indefinível, e impossível de definir porque Deus só nos propôs enigmas. […] Aí lutam o diabo e Deus, e o campo de batalha é o coração dos homens. Aliás, é a dor que ensina a gemer.”
Nesta passagem de Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski mostra como a dimensão da existência humana não se deixa reduzir à racionalidade, tampouco se permite enquadrar em explicações com pretensão à neutralidade científica.
Dmitri enfrenta conflitos internos que o levam ao desespero. Seu irmão, Aliócha, é o “para-raios” moral que ouve, nesse momento do romance, a confissão do irmão.
A Queda da Máxima Socrática e a Lucidez do Mal
Ora, Dmitri possui plena consciência de sua depravação. Portanto, ele é aquele que, mesmo consciente do erro, é vencido pelas paixões. A família Karamázov e as tramas contidas no livro demonstram como a máxima socrática de que “o erro nasce da ignorância” (o erro moral) cai por terra no cotidiano moderno.
As ações mais vis são acompanhadas, na obra, por reflexões sobre a perversidade das mesmas. Isto parece tornar nítida uma característica do homem moderno: a de ser consciente do que faz e das consequências de seus atos viciosos, da culpa que virá após a consumação, e, ainda assim, de se ver praticando o ato vil.
A moral cristã, outrora norteadora de toda ação humana, perdeu sua efetividade sobre os indivíduos, deixando um vazio que não foi preenchido de forma efetiva. O prazer e o desprazer, como medida de justificação para praticar ou não um ato, reinaram não por uma fundamentação metafísica, mas como consequência natural da ausência de princípios que dessem um norte comum aos sujeitos.
A ideia de Bem perdeu, assim, o seu poder coercitivo sobre as pessoas. Mas a sua existência continuou a ser nítida de forma negativa. O Belo ganhou independência em relação ao Bem, tornando o ser humano capaz de encontrar beleza no abismo, na transgressão.
A Dialética da Alma: O Ideal de Sodoma e a Madona
Não é intenção do presente autor romantizar um passado distante onde tudo era perfeito; bem longe disso. As transformações engendradas pela derrocada da moral de outrora trouxeram, sem dúvida, benefícios muitíssimo importantes à humanidade.
Ora, como bem aponta Hegel, nenhuma superação (Aufhebung) se dá de maneira a excluir categoricamente o superado. Antes, ela o conserva em sua positividade. Neste instante em que vos escrevo, tecendo críticas a determinados elementos da modernidade, já o faço de maneira a sintetizar o que fora em outros tempos, o que é agora, e o que será em decorrência de nossa ação sobre este presente que nos envolve.
Dito isto, o homem moderno, tendo o ideal de Sodoma na alma, aspira pelo ideal de Madona. Este é entendido como a superação de toda a impureza, de todas as mazelas decorrentes do ideal sodomita.
Dmitri deseja ardentemente Madona, mas se vê preso, como que por uma força gravitacional, ao ideal de Sodoma. Tudo aquilo que o cerca, imediatamente disponível para lhe proporcionar gozo, o atrai com uma força descomunal. Mas tudo o que pode lhe oferecer tais prazeres cobra-lhe imediatamente o preço. Dmitri sabe perfeitamente disso, mas continua humilhado por sua própria paixão.
A profundidade desta passagem dostoievskiana liga-se justamente à constatação de que atingir o ideal de beleza — desde que subordinado ao ideal de Bem — exige terríveis renúncias, as quais o cristianismo previu muito bem.
O Peso da Consciência Secular e a Asfixia do Imediato
Não é necessário ser religioso para notar esse padrão na natureza. Submeter-se ao crivo da razão e manter-se fiel a uma meta considerada ideal é uma tarefa hercúlea.
A religião, por seu caráter ingênuo, permite, amiúde, que aquele que almeja tal ideal interprete o mundo tendo-o como fim último. Contudo, falta-lhe a consciência clara a respeito das possibilidades que o cercam e da própria historicidade da colheita dos frutos de suas ações. Destarte, a sua cognição, blindada pela crença, não o trai facilmente, ficando a cargo exclusivamente da sensibilidade a exposição às tentações que o rodeiam.
O indivíduo com a consciência secular desenvolvida, por sua vez, é ciente de sua historicidade e de suas possibilidades de vir a ser. Ele é tentado, assim, tanto no âmbito sensível quanto no âmbito intelectivo.
Eis o traço dramático do indivíduo de nossos tempos: consciente (ou semiconsciente) de sua finitude, ele sofre as consequências do imediatismo no qual vive. Já não projeta o seu ideal no além-mundo; ancorando-se neste, prende-se ao presente e comete o erro de agir como quem pensa que se vive apenas uma vez. Vive asfixiado pelo ideal do belo sodomita, centrado unicamente em si e no usufruto do dia de hoje. A sua miopia é tão grande que não percebe o devir que o espreita e o cobra; a sua imoralidade é de tal magnitude que aquilo que está para além de sua existência individual não interfere mais em suas ações.