A Ilusão da Razão Pura: Meios, Fins e a Autenticidade do Agir

I

Quais as razões que nos levam a agir de determinada forma e não de outra? Em determinados contextos, agimos objetivando um fim moral; em outros, um fim prático. Isto não quer dizer que um determinado fim exclua o outro, mas que no mínimo um destes fins serve como um norte para as ações humanas. É certo que, usando meios práticos, pode-se alcançar fins morais, ou, tendo estes como meio, pode-se alcançar aqueles.

Isso nos leva a questionar se tudo o que é real é racional; ou se tudo o que é bom é racional; ou se a razão não seria meramente o nome dado a causas de determinados fenômenos.

Ora, mas com a hipotética redução da razão a causas, não se excluiria a peculiar natureza das ações humanas? As ações humanas não se dão como em um processo causal nos moldes das leis da física; elas se dão, no entanto, por motivações. Prazer e desprazer, bom e mau, bem e mal, vantajoso e desvantajoso, etc. A pedra rola pela montanha, tendo como fim o próprio rolar; portanto, não há um fim intencional em seu movimento, diferente do ser humano consciente de si.

Tendo em vista a ação movida por motivações, é importante o levantamento do seguinte questionamento: o que acontece quando as ações têm como fim a praticidade, e a moralidade como meio, ou aquela como meio, e esta como fim?

II

Como o presente texto se dá em forma de ensaio, não pretendo aqui responder a tais questionamentos de forma categórica. A pretensão é mais de problematização do que de resolução, o que já é condição para que se tenha mais intencionalidade nas ações humanas.

Responder de forma categórica a tal questionamento, sem as ponderações necessárias, nos levaria a possíveis consequências que são piores que as decorrentes da ignorância simplória na qual muitos estão mergulhados.

Quando damos a qualidade de universalidade a algo particular, caímos na cíclica cadeia casuística de eventos trágicos, em que grupos de indivíduos com ideias fixas dão suas vidas a causas pretensiosas, que arrogam para si a posse da verdade absoluta.

III

Embora pareça demasiado abstrato o que foi dito, basta que qualquer um de nós observe em seu próprio cotidiano quantas coisas são tratadas como um fim em si mesmas, demandando de nós um esforço descomunal sem nenhum fim intencional.

Portanto, é preciso ter em mente que a filosofia, quando abstrai elementos da realidade e a ela permanece fiel — identificando a contingência e a necessidade que a constituem —, possibilita ao sujeito que pensa uma maior gama de liberdade diante da existência.

Dito isto, para uma maior provocação filosófica, podemos reformular o questionamento que deu início ao presente texto da seguinte maneira:

Quais as reais motivações por trás das razões aparentes de nossas ações? Identificando essas motivações, ao menos, teremos maior intencionalidade em nosso agir sobre o mundo.

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