Conforme uma determinada vertente filosófica, não se nasce humano, torna-se. Contudo, para tornar-se humano, para a internalização e desenvolvimento de valores e símbolos que deem ao sujeito poder de interpretar a realidade e desenvolver seu próprio ethos, é preciso que se tenha a priori, isto é, antes de qualquer experiência, as condições de vir a ser humano. Portanto, o que é tornar-se humano?
O que diferencia o ser humano do animal, independentemente da experiência, é seu caráter de projeto inacabado. Conforme o sujeito interage com o mundo e com os outros, mediante suas escolhas, sua identidade é formada.
Para o desenvolvimento do presente ensaio, é preciso ter em mente a diferença entre as condições a priori de vir a ser humano, que antecedem a experiência, e a efetividade de tornar-se humano, que se dá no desenvolvimento do indivíduo — o qual, ao mesmo tempo, internaliza símbolos e os modifica em seu agir no mundo. O indivíduo é humano em potência, que precisa de atualização para tornar-se ato.
II
A necessidade de sobrevivência rege a vida animalesca. O animal, confrontado cotidianamente com desafios que se interpõem ao seu existir, se vê obrigado a reagir e desenvolver alternativas que lhe possibilitem viver. Desafios como conseguir alimento, abrigo, entre outros, tomam a maior parte do tempo dos animais, que o fazem instintivamente.
Os mesmíssimos desafios são impostos pela necessidade ao ser humano. Entretanto, este desenvolve sistemas simbólicos que lhe permitem transcender o mero instinto de sobrevivência. Eis a diferença fundamental entre o estado animalesco e o humano.
III
Vivemos tempos ambíguos. Nunca os meios de subsistência foram tão bem desenvolvidos; contudo, nunca o ser humano foi tão superficial. Tirou-se o que outrora tensionava a imaginação, o confronto com a necessidade, tornando contingente o desenvolvimento da imaginação e do imaginário.
Mas com isso, o que restou ao ser humano foi o ato de produzir, por meio da transformação material dos elementos da natureza, e de consumi-los.
Com a precariedade dos sistemas simbólicos modernos, grande parte da humanidade vem retrocedendo à consciência pré-reflexiva. Com isto, a razão humana é limitada a um mero instrumento de produzir objetos, tornando-se razão instrumental.
Com isto, o próprio ser humano é reduzido a instrumento de produção. O que outrora era um meio para transcender a necessidade tornou-se fim em si mesmo.
IV
Tendo como fim a reflexão filosófica que devolva ao ser humano a capacidade de ir além da imediatez, este site foi criado.
Em tempos nos quais se vive em busca de aprovação, de status, nos quais a aparência é a medida de todas as coisas, é preciso voltar-se a si mesmo reflexivamente e se perguntar sobre o que se está fazendo aqui, nesta vida passageira.
Portanto, caros leitores, esperem pelas próximas páginas que virão em breve…